O vinho chileno foi servido, provado, aprovado e surgiu a dúvida: o que significa "Casillero del Diablo"? Na roda, muitos apreciadores mas nenhum "conhecedor"; ninguém sabia. Depois de alguns palpites mais ou menos humorados, passamos a outro assunto. Mas eu fiquei com o Google atrás da orelha. Chegando em casa, pesquisa.
Procurei primeiro no Michaelis Espanhol-Português, em papel mesmo, que pra muitas coisas ainda é mais rápido. Casillero é fichário, arquivo. Mas não achei suficiente: e por que "del diablo"? Fichário do capeta? Arquivo do demo? Por que um vinho teria esse nome?
Entrei no Google. Casillero, 436 mil entradas. A primeira delas era um dicionário. De novo "fichário, arquivo" mas também "ficha" e, nos esportes, "placar". Casillero electrónico é placar eletrônico, ora vejam. Na seção espanhol-espanhol do dicionário, uma definição mais completa: "Mueble con divisiones para clasificar o guardar papeles u otros objetos". Mas e o diabo?
Fui no Google Imagens. Alguns porta-arquivos, vários armários daqueles cheios de repartições (devem ser as "casillas") e, mais adiante, garrafas do tal vinho. Me ocorreu que "casillero" podia ser adega. O outro lado do Michaelis não confirmou: "adega" em espanhol é "bodega" ou "taberna". Mas casillero pode ser a parte da adega em que os vinhos são guardados, num armário ou arquivo ou coisa parecida. (Difícil é imaginar qual seria a outra parte da adega, aquela em que os vinhos NÃO são guardados.)
Daí, fui pro sítio do próprio vinho, www.casillerodeldiablo.com, aonde eu devia ter ido desde o início. Interessante. Em 1883, don Melchor de Concha y Toro (outro vinho chileno, ou será o mesmo?) trouxe para o Chile algumas cepas de Bordeaux, na França, e plantou-as no vale do Maipo (mais um?), com excelentes resultados. Uma parte dos melhores vinhos produzidos, don Melchor guardou para consumo próprio.
Aí vem a frase: "Como una forma de mantener inalterables sus condiciones de temperatura y humedad, estos vinos fueron guardados al fondo de esta magnífica bodega, en un casillero especialmente destinado para este fin." Ou seja, aparentemente é isso mesmo: o "casillero de la bodega" seria a parte mais nobre da adega, uma espécie de armário ou arquivo de barris.
E a história do diabo é que é interessante: nos primeiros anos, vários barris desapareceram misteriosamente do casillero. Para dar uma explicação ao sumiço, e principalmente para evitar que os camponeses da região continuassem roubando seu precioso vinho reservado, o velho Concha espalhou a lenda de que o diabo morava justamente naquela adega. E parece que funcionou: não se sabe se por medo de Satanás ou do velho maluco que tinha inventado essa bobagem, os ladrões de vinhos nunca mais entraram na caverna maldita. E ficou o nome: Casillero del Diablo, a parte-da-adega-onde-se-guardam-os-vinhos do chifrudo.
Boa essa, hein? Mas não tente espalhar uma história parecida em relação à sua conta bancária, ou ao rádio do seu carro. Não funcionaria. Não se fazem mais lendas antigas como antigamente.
Depois dessa bela explicação só me resta saborear o que o vinho Casillero del Diablo tem de melhor.
Obrigado, Adel. Saúde!
Oi, Giba, obrigada pela pesquisa. Pois eu estava procurando o significado hoje, no Google, e fui direto ao seu sítio... Também não observei as miudezas do verso da garrafa. Quando comecei a ler sua explicação sobre Casillero, antes de chegar ao final do texto, teci outra hipótese. A certa altura e muitas taças, verdades verdadeiras diabinhas escondidas nos "casilleros" de cada um vêm à tona (ah, parece que Casillero del Diablo é marca da casa Concha y Toro). E isso me faz recordar o início do livro "Eny e o grande bordel brasileiro", de Lucius Mello, um texto vertiginoso pelos parreirais de algum lugar na Europa (não lembro o nome, agora), em que ela , futura prostituta não sabida, se revela. Abraços, Maria.
Bastava ler o rótulo do vinho... No rótulo conta a história da origem do nome do vinho, em apenas 03 linhas.
É mesmo? Puxa, mas então as letrinhas deviam ser muito pequenas, Vinicius. Abraço.
Muito bem elaborada a resposta. Estava curioso também pelo assunto. Parabéns.
Giba, experimenta o Carmenére da Casa Silva. Não tem tanta história, mas é bem melhor (e tem mais ou menos o mesmo preço).
Giba: prova o "los Alamos" ou mesmo o Don Melchor (este é caro) mas infinitamente superiores ao Casilero. Embora esteja convencida que o gosto de um vinho também está nas companhias. Mas seguinte: legal este espaço e como pedi ao Furtado adoraria ver a crítica ou opinião dos filmes correntes em Poa... tipo A vida dos outros ou o caçador de pipas... abraços
Puxa, valeu a pesquisa hein? Só que essa estória foi já contada no comercial deste vinho. Sério, passou na TV fechada a uns anos, em espanhol. Mas ah também ,garanto que não sabias. O vinho é bom e a estória também. Valeu.
Dani, obrigado pela informação. O Google ainda não tem tudo, felizmente. Adriana, valeu a dica, qualquer dia eu provo o Don Melchor. Quanto aos comentários, nós não somos críticos, escrevemos quando achamos que temos alguma coisa pra dizer. O Gerbase escreveu esses dias um texto bem interessante sobre "Meu nome não é Johnny". Abraços. Giba.
Olá, Giba. Passei por aqui ao acaso e não pude deixar de comentar sua pesquisa. No final do ano passado, fiquei alguns dias em Santiago do Chile e pude conhecer pessoalmente a vinícola do Don Melchor de Concha y Toro, no Pirque, pequeno município localizado a 27 km da capital chilena. Realmente a fazenda tem proporções gigantescas e sem dúvida é um dos maiores símbolos de lá, o orgulho do Chile. Para se ter uma idéia do controle de qualidade dos vinhos, as parreiras são regadas com água proveniente do degelo dos Andes, captado através de córregos artificiais. O Casillero del Diablo, que na minha opinião tem um significado próximo a "casa do diabo", é uma caverna subterrânea com acesso por dentro de uma enorme sala. É um lugar bastante frio (bem mais do que a superfície, porém sem sistema algum de refrigeração), não muito grande, mas comporta centenas ou milhares de barris de vinho que chegam a custar 5.000 dólares cada. O mais interessante é que, apesar de o local estar em um lugar extremamente sujeito a terremotos, não há qualquer tipo de infra-estrutura que impeça um desmoronamento nesta "sala do tesouro". E mesmo assim, não se sabe como, a caverna nunca se abalou com os freqüentes movimentos sísmicos. É coisa do outro mundo mesmo, magnífico, inexplicável. Abraço!
Inclusive, dizem que o dono da adega, chegou a vestir-se de diabo para assustar os ladrões de seu vinho.
Dia das Mães! E todos em volta da mesa, um brinde à nossa saúde. Somos muitas. E eles, que não são tão poucos asssim, questionam. Que significa esta palavra? Da onde vem este nome? E aí, aposso-me do meu presente (aniversário, dia das mães) e vou ao Google. E lá está você, o seu blog e todos ( ou quase todos) os esclarecimentos. E o vinho, o almoço e o Dia das Mães ganham uma nova história. Seria a mãe de quem? Você está lá e me esclarece tudo. Ou quase isto.
Obrigado pelo retorno, Angela. Volte sempre.
Adorei tua pesquisa... frui movido pela mesma curiosidade e esbarrei no teu comentario sobre a origem do nome casillero del diablo, muito boa matéria e muito bom vinho... saúde a todos!!!!
Valeu, Luciano. Bons vinhos e saúde pra brindar.
Ba, Giba. Muita querida tua explicação. Realmente no rótulo consta, mas achei mais completa na tua página. Só um porém: Vale do Maipo é a grande região vinícola chilena, assim como Bento é por essas querências aí e a casa Concha y Toro é a fabricante do Casillero e outros tão bons quanto. Dê uma olhada no nosso blog, sub-título "Vinhos, xadrez e opiniões" e tome uns goles lá na cidade baixa por mim.
Obrigado, Ney. Saúde.
Giba, Amei a tua explicação. É muito fofa. Adoro o Casillero e já há algum tempo estava atrás do significado do nome. Esta foi genial, me remeteu há uns três séculos passados. Dei uma viajada legal. Pena que no Rio o clima seja muito quente e aí nem sempre podemos desfrutá-lo o ano inteiro. Obrigada.