Giba Assis Brasil

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O Meio do Não

A partir do número 12, O EX-CALADO deixou de ser semanal e passou a ter novos colaboradores a cada edição: Cláudio Heinz e Neca Heinz (irmãos do Heron), Alvaro Magalhães, Hélio Pinheiro, Abdias Mello e Paulo Mello, Teo Meditsch, Zé Luis Lima, etc, quase todos ex-colegas ou contemporâneos do Colégio de Aplicação.

Dois anos e 26 edições depois (o que significa que o nosso não-periódico tornou-se "mais ou menos mensal"), o nome "Ex-calado" já não bastava. Em dezembro de 77, quando estávamos preparando o número 27, eu perguntei pro Alvaro Magalhães qual seria o novo nome do jornal e ele, que não queria voltar àquele assunto, respondeu: NÃO! E ficou.

Na época, eu tinha 20 anos, e era uma violência comigo mesmo chamar uma coisa que eu fizesse de NÃO. Num dos números seguintes, escrevi uma matéria só de citações contrárias ao título. Lembro de algumas: "Yes is the answer" (John Lennon, Mind games) "E eu digo sim, e eu digo não ao não" (Caetano, É Proibido proibir). "A palavra certa é sim." (Walter Franco, Revolver).

Mas, no final, eu colocava o título de uma música do Chico Buarque, do Calabar: "Vence na vida quem diz sim". Quer dizer, tinha uma dialética interessante. Tudo o que eu não queria na época era "vencer na vida". Pelo menos eu achava isso.

Camus, em sua releitura de Nietzsche (O HOMEM REVOLTADO), propõe ir "além do niilismo", o que, reduzido a uma fórmula de manual de auto-ajuda, seria "primeiro dizer NÃO para depois poder dizer SIM". Claro que eu não conhecia esse texto, e mesmo que conhecesse ele provavelmente não se encaixaria no meu raciocínio da época: não tinha essa coisa de etapas, com 20 anos era "tudo ao mesmo tempo agora". No número 28 escrevi um MANIFESTO NÃO (uma página em branco) e no 29 um MANIFESTO SIM, em que a única coisa compreensível era o subtítulo: "que também pode ser o manifesto também não". A capa do número 42 era um grande NÃO formado de SIMs, como o LUXO/LIXO do Augusto de Campos.

E os trocadilhos e jogos de palavras que se podiam fazer com esse título? No próprio número 27 já tinha: "Seja você também um niilista: não leia, não divulgue, não assine e não colabore com o Não - um novo marco na história da imprensa (ou será que não?)" Mas é claro que os jogos de palavras nos interessavam mesmo era por suas possibilidades de inversão de significados. A partir daí, eu passei a adotar um cacoete de texto que na época me pareceu extremamente radical: sempre que eu afirmava alguma coisa, colocava um ponto e depois acrescentava: "Ou não".

Nos anos seguintes, o Não mudou algumas vezes de formato (de tamanho caderno passou para ofício e teve até mesmo um número tablóide) mas manteve sempre a sua idéia básica: um jornal feito artesanalmente, com um único exemplar que circulava de mão em mão a cada número, e em que as únicas funções do "editor" (cargo definido por revesamento entre os colaboradores) eram juntar o material, fazer uma capa e um índice.

Mas, a essa altura, a turma já era outra, ou tinha crescido ainda mais: os fundadores Ricardo e Heron nunca chegaram a se afastar totalmente, o pessoal do Aplicação continuava colaborando, mas quem passou a definir a linha editorial (nunca explicitamente, é claro) foram os novos amigos que eu encontrei na Universidade, muitos deles no curso de Jornalismo: Paulo Cesar Teixeira e Alvaro Teixeira, Alberto Groisman, Sérgio Lerrer, mais tarde também o Carlos Gerbase e o Nelson Nadotti. Era o final dos anos 70, e o super-8 (e todo o resto) se tornou uma possibilidade.

O Não seguiu até 1983, quando foi lançado o 52º e último número em papel. Destes 52, eu ainda tenho 33 nos meus arquivos - os outros 19 devem estar por aí, com os demais editores, ou já foram parar no lixo. O Não que surge na internet 15 anos depois é evidentemente outra coisa. Mas nem tanto.

(o texto acima foi adaptado e ampliado a partir do editorial que eu escrevi em abril de 1998 pro Não 54, um dos primeiros na internet)

Capa do Não 28, de março de 1978
Capa do Não 28, de março de 1978

Insistindo:

Pra quem pensava que o Não tinha ido embora, "olha ele aqui traveiz", como diriam o Adoniran e o pessoal da Terreira. Depois de dois anos no limbo do hiperespaço, o Não volta em seu número 83, enxuto e temático ("tecnologia e contracultura" é o nome do jogo), com edição do Cesar Brod e textos de Albert Siedler, Ariela Boaventura, Carlos Gerbase, Eloar Guazzelli Filho, Gaby Benedyct, Giba Assis Brasil, Joice Käfer, Pedro dos Santos de Borba e Roberto Tietzmann.

O endereço, pra quem não lembra mais, é
http://www.nao-til.com.br

Enviado por Carlos Gerbase em 22 de julho de 2008.

Apenas uma pequena correção: "ir além do niilismo" pode até ser uma expressão do Camus, mas a idéia de ultrapassar a passividade do nillismo está bem explícita no próprio Nietzsche, que falava em "niilismo negativo" (que leva à inércia) e "niilismo positivo", que faz o homem avançar. E, se avançar tudo que pode avançar, surgirá o super-homem, que não tem nada de nazista, porque está além do bem e do mal. Lembro de um diálogo do "Deu pra ti" em que Ceres encerra um debate filosófico-niilista dizendo que "Hitler estava sempre citando Nietzsche". E Marcelo fica calado, como se este fosse um argumento definitivo. Depois de viver mais uns trinta anos e ler um pouco de Nietzsche, me dá vontade de voltar no tempo e dar algum argumento pro Marcelo, que com certeza não precisaria ser retirado de Camus. Lembro que Nietzsche fala de SIM e fala de NÃO, mais ou menos assim:
- NÃO contra tudo que debilita, contra tudo o que esgota, contra tudo que leva à morte;
- SIM a tudo que fortalece, acumula forças, justifica o sentimento de força, a tudo que leva à vida.