Jorge Furtado

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Sexo e Poesia, segunda parte

Não engulo esta onda moralista sobre a suposta "pornografia" dos textos dos livros didáticos paulistas. Já li um abobado chamando Manoel de Barros de pornográfico, cruzes. Episódio semelhante aconteceu em Porto Alegre , na primeira prefeitura petista, que apoiou a publicação de uma excelente revista em quadrinhos (Dum-Dum) e levou pau da direita que julgava a revista indecente.

Agora é a esquerda que bate em Serra por causa de uma frase de um poema de um livro "não ame, estupre". Não li o livro mas me parece que o contexto da frase era o da ironia. Frases pinçadas de Hamlet ou Macbeth podem parecem pornografia ou incitação ao crime.

Este discurso moralista é assustador, é o que a esquerda tem de pior.

(Texto publicado no blog do Nassif, 31/05/2009 - 18:36, com o título Livros didáticos e moralismo)
(comentários)

#  31/05/2009 - 20:02  Enviado por: Jorge

É claro que deve haver critério para a escolha de livros para cada série e cada idade, mas o caso está sendo tratado com evidente exagero, num moralismo que une, ao que parece, leitores do Estadão e deste blog.

De minha parte, acho ótimo que crianças de 11 e 12 anos leiam Manoel de Barros. A poesia pode servir de contraponto às toneladas de pornografia que a internet e a televisão certamente já despejaram sobre elas a esta altura da vida.

A questão legal (contratos milionários, lobby de editoras, etc.) não pode ser confundida com a questão pedagógica (ou psicológica, ou ainda estética). Esta mistura de moralismo e ideologia dá medo.

Neste poema de Manoel de Barros, por exemplo, alguém pode pinçar momentos de zoofilia e crueldade contra crianças. Afinal, o céu do sapo tem o tamanho da boca do poço. Ou, como disse o próprio poeta, "Coisa que não acaba no mundo é gente besta e pau seco".

Jorge Furtado

X

DIÁRIO DE BUGRINHA (Excertos)
Manoel de Barros

22.1.1925
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão­ninguém. Ele parece com Bernardo.

23.2
Lagartixas têm odor verde.

2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.

23.2
Quem ama exerce Deus — a mãe disse. Uma açucena me ama. Uma açucena exerce Deus?

2.3
Eu queria crescer pra passarinho…

5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.

5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos! Eu estou transida de pétalas.

7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede.

12.8
As garças descem nos brejos que nem brisas. Todas as manhãs.

10.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia?

13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.

19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele. Meu irmão foi entrando para inseto até desaparecer. Ficou dentro do mato até amanhã.

1.1
O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.

2.2
A mãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.

5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.

29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué, eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô enxergava mal.

2.1.1926
Catre-Velho é um ser confortável para moscas. Ele nem espanta algumas.

12.1
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.

1.3
As árvores me começam.

1.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.

10.4
Os patos prolongam meu olhar… Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho…

21.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.

22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.

Extraído do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas), Editora Record - Rio de Janeiro, 1996, pág. 29.
(comentários)

# 31/05/2009 - 21:43

Enviado por: Jorge

O brilhante escritor e respeitável pornógrafo Dalton Trevisan disse uma vez que para se começar um debate é uma boa idéia ter como ponto de partida aquilo com que todos concordam.

Imagino que todos concordam que contratos públicos devam seguir critérios claros, transparentes. Imagino que todos concordam que uma criança de 9 anos não deve ser estimulada a ler livros onde personagens debatem se alguém dá o cu ou chupa rola, por favor, sem acento.

Dito isso e, para avançar na conversa, não vejo problema algum em estimular uma criança de 11 ou 12 anos a ler poemas de Manoel de Barros, usem estes poemas as palavras que quiserem.

Jorge Furtado

02/06/2009 - 08:00

Os livros da Secretaria da Educação
De Maringoni

Caros e caras:

Houve uma razoável repercussão na imprensa, há duas semanas, sobre uma suposta cartilha com palavrões e conteúdo pornográfico que a Secretaria de Educação dos Estado de S. Paulo teria distribuido a alunos de 3a. série do ensino público. A situação mereceu uma campanha moralista por parte de certos órgãos de imprensa, a Globo em primeiro lugar.

Devo dizer que o caso é um tanto diverso do apregoado. A "cartilha" é na verdade um livro de quadrinhos, editada pelo Orlando Pedroso, ilustrador da Folha, e dela fazem parte 11 cartunistas, entre eles Spacca, Lelis, Fabio Moon, Gabriel Bá, Osvaldo Pavanelli, Caco Galhardo e este locutor que vos fala. Trata-se de um álbum, dirigido ao público adulto, lançado por ocasião da Copa de 2002.

A escolha e a compra pela Secretaria se deu totalmente à nossa revelia. Houve um claro equívoco da parte do governo estadual. O moralismo indignado da mídia é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais.

Envio a vocês, anexo, a cópia de minha história lá publicada.

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Meu comentário:

Alô Maringoni

Excelente trabalho, parabéns. Como é o nome do livro e como faço para comprar? Qual a editora?

Parabéns ao governo Serra por ter propiciado aos alunos da rede pública paulista um trabalho desta qualidade. Se a leitura for inadequada para crianças de 9 anos (talvez seja) não há problema algum, elas vão crescer, podem esperar para ler aos 11 ou 12. Enquanto isso, que os livros sejam lidos por crianças mais velhas.

Questões legais (contratos, concorrências, etc.) não devem ser confundidas com análise da qualidade das obras. Isso acaba em anedota, como a do meganha da ditadura (dita branda) que prendeu um sujeito por estar lendo Memórias Póstumas de Bras Cubas.

O estrabismo ideológico que cola o rótulo de pornográfico em Manoel de Barros é o mesmo que faz a Folha não reconhecer que a ficha de Dilma e o grampo Veja-Demóstenes-Gilmar nunca existiram.

Por falar em pensar, recomendo fortemente a leitura de "O Espírito das Luzes", do Todorov. Obra-prima de simplicidade e lucidez.

Jorge Furtado