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O SANDUÍCHE
roteiro de Jorge Furtado
versão 26/06/2000
produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
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CENA 1 - SALA - INTERIOR, NOITE
Sala de um apartamento. Bons quadros na parede. Uma luminária é a
única fonte de luz da cena. ELA, cabelos presos, está a mesa e
observa uma xícara de chá. ELE está de pé, carrega uma sacola e
alguns livros.
ELE
Acho que é isso.
ELA
Certo.
ELE
Se eu lembrar de mais alguma coisa eu te ligo.
ELA
Claro.
ELE
Eu ligo de qualquer maneira, amanhã.
ELA
Se quiser.
ELE
Eu vou querer.
ELA
Você não tem como saber se vai querer.
ELE
Tenho sim. Eu vou querer.
ELA
Então tá bom.
ELE
Você também pode ligar.
ELA
Posso? Que bom, fico feliz em saber.
ELE
Pode não no sentido de poder. No sentido de... Eu
quero que você ligue.
ELA
Quer?
ELE
Quero, claro. Só porque a gente não vai mais morar
junto não significa que eu vá perder um...
Pausa.
ELA
Esquecer.
Desarmam os personagens.
ELE
Esquecer! Esquecer! Esquecer! Que eu vá esquecer!
Que eu vá esquecer cinco anos da minha vida.
Ele pega um roteiro encadernado, confere. Ele caminha pela sala.
Ela acende um cigarro.
ELA
A gente mudou esta fala faz tempo.
ELE
Eu sei, claro.
ELA
Quer parar?
ELE
Não, não. Vamos terminar a cena. Até aí foi bem.
Me desconcentrei, foi só isso.
ELA
Faz o seguinte: imagina que aqui tem uma platéia,
que o teatro está lotado, tem um monte de gente
nos olhando.
ELE
Onde.
ELA
Ali.
Ela aponta para a platéia, lotada. Ele se vira e fica olhando
para as pessoas na platéia.
ELA
Imaginou?
ELE
Imaginei. E agora?
ELA
Agora esquece deles e lembra do texto. Acho que tu
podia largar a pasta na fala anterior, ali no
"sentido de... Eu quero que você ligue".
ELE
É bom.
ELA
É o momento em que ele vacila, diz que quer que
ela ligue. Acho melhor.
ELE
Vamos fazer do início ou só final?
ELA
Vamos fazer a partir do "você também pode ligar".
ELE
Tá bom.
Ele volta a sua marca, ela apaga o cigarro, ele pega a pasta,
retomam os personagens.
ELE
Você também pode ligar.
ELA
Posso? Que bom, fico feliz em saber.
ELE
Pode não no sentido de poder. No sentido de...
(ele larga a pasta) de que eu quero que você
ligue.
ELA
Quer?
ELE
Quero, claro. Só porque a gente não vai mais morar
junto não significa que eu vá esquecer cinco anos
da minha vida.
ELA
Sete. Contando o namoro.
ELE
(ele se aproxima) Parece menos. Passou tão rápido.
ELA
É. Passou.
ELE
Você acha que passou mesmo?
ELA
(ela levanta) Não é questão de achar ou não achar.
Você está indo embora, passou. Acabou.
ELE
Eu não acho que acabou.
ELA
Mas acabou. Talvez até possa começar outra vez, de
outro jeito.
ELE
(ele se aproxima) Seria ótimo.
ELA
Seria.
Desarmam os personagens.
ELA
Aí a gente se beija e fim.
ELE
Ficou bom largando a pasta mais cedo.
ELA
Ficou.
ELE
Tu já jantou?
ELA
Comi um sanduíche. Tu não jantou?
ELE
Não. (olha o relógio) É tarde.
ELA
Quer um sanduíche? Eu faço.
ELE
Não precisa, obrigado, eu como qualquer coisa em
casa.
ELA
Eu faço um sanduíche em um minuto. Gosta de peito
de peru?
ELE
Gosto.
Ela prepara um sanduíche.
ELA
Tu foi casado quanto tempo?
ELE
Dois anos.
ELA
Rápido. Gosta de mostarda?
ELE
Gosto, mas pouquinho. E tu?
ELA
Eu adoro.
ELE
Não, tu já foi casada?
ELA
Ah... Morei com um cara, um ano.
ELE
Mais rápida que eu.
ELA
Maionese?
ELE
Não, tô precisando emagrecer.
ELA
Pra que? Tu tá ótimo.
ELE
Acha? Obrigado. Pode botar um pouquinho então.
ELA
(entrega o sanduíche, corta ao meio) Pronto.
ELE
Obrigado.
ELA
Quer suco de laranja? Refrigerante?
ELE
Suco.
Ele morde o sanduíche.
ELE
Humm. Delícia.
ELA
Obrigado.
Ela serve o suco.
ELE
Tu se separou por quê?
ELA
Ele não gostava dos meus sanduíches.
ELE
Não é o meu caso. O que mais tem aqui? Peito de
peru, mostarda.
ELA
Rúcula, tomate e... o resto eu não digo.
ELE
O que é?
ELA
Um tempero secreto. Aprendi com uma pessoa,
prometi não contar. E nunca contei.
ELE
Uma pessoa.
ELA
Uma amiga.
ELE
Não precisa contar. É ótimo. Um cara que não gosta
deste sanduíche tem algum problema sério.
ELA
Obrigado. Ele estava namorando outra.
ELE
E tu descobriu. Ou te contaram?
ELA
Ele me contou.
ELE
Bom.
ELA
Menos mal. (ela senta perto dele) E tu? Separou
por quê?
ELE
Não sei bem. Ficou chato.
ELA
De repente?
ELE
Não, aos poucos. Acho que é sempre assim. Acontece
aos poucos e a gente percebe de repente, quando
acontece alguma coisa, uma coisa banal.
ELA
Que coisa?
ELE
Isso eu não conto.
ELA
Desculpe.
ELE
Não, tudo bem. É que é uma coisa que não faz
sentido, pra quem vê de fora. É complicado de
explicar.
ELA
Claro, eu sei.
ELE
É uma coisa que a outra pessoa faz e tu percebe de
repente que ela é uma estranha. Ou uma coisa que
ela sempre fez mas tu nunca tinha percebido que
ela fazia. Ou queria fazer.
ELA
Conta logo.
ELE
Quer que eu conte?
ELA
Tu tá louco para contar.
ELE
Vamos fazer o seguinte: tu me diz qual é o tempero
do...
ELA
Vinagre balsâmico, azeite de oliva, sal e páprica.
O que foi que ela fez?
ELE
Páprica?
ELA
Um tempero, tem em qualquer lugar. Conta logo.
ELE
Ela comprou uma calça de couro.
Pausa.
ELE
Eu disse que era ridículo. Claro que eu não me
separei por que ela comprou uma calça de couro. É
que de repente eu vi ela de calça de couro,
botando batom e pensei, quem é essa pessoa de
calça de couro no meu banheiro?
ELA
Sei.
ELE
Na verdade foi ela que mandou embora. Mas foi um
alívio. Acho que ela já estava a fim de outro cara
há tempo. A calça de couro foi um sinal. Páprica é
um vegetal?
ELA
É. Acho que é, eu compro em pó. Só conheço em pó.
ELE
Tenho que fazer super. Só compro comida no posto
de gasolina.
ELA
Tu tá sozinho?
ELE
Estou. Quase um ano. E tu? Eu vi você com um cara
lá no teatro.
ELA
Amigo.
ELE
Amigo? Sei.
ELA
Um ex-namorado. A gente ficou amigo.
ELE
Mesmo? Como é que faz isso? Quer dizer, eu
encontro minha ex-mulher, cumprimento. Eu vi vocês
dois no teatro. Vi ele mexendo no teu cabelo.
ELA
Ele é gay.
ELE
Ah, bom. Assim é fácil.
ELA
Ele adora cinema, teatro.
ELE
Sei.
ELA
Eu estou sozinha.
ELE
(ele se aproxima) Alguém que faz sanduíches assim
não fica sozinha por muito tempo.
ELA
Não é qualquer um que experimenta meus sanduíches.
ELE
Hummmm... Espero que seja o primeiro de uma série.
ELA
Seria ótimo.
ELE
Seria.
ELA
Essa é uma fala da peça.
ELE
Qual?
ELA
Seria ótimo, seria.
ELE
É mesmo. O que vem depois?
ELA
Depois a gente se beija.
ELE
Seria ótimo.
ELA
Seria.
Beijam-se.
ELA
Hummmm...
ELE
O que foi?
ELA
Faltou mostarda.
Ele sorri.
DIRETOR
(fora de cena) Corta!
CENA 2 - PRAÇA - EXTERIOR, DIA
Ela e Ele desarmam os personagens. Um Microfonista erque-se entre
os dois. Câmera recua e mostra um set de filmagens. O maquiador
entra em cena e arruma o cabelo dela. O pessoal da cenografia
mexe na geladeira.
Uma Menina entra em cena e vem falar, muito íntima, com Ele.
Falam de mão dadas.
DIRETOR
Valeu. Foi ótimo. Amanhã é externa, seis e meia.
ELA
Não quer fazer o final? No ensaio ficou melhor.
DIRETOR
Ficou ótimo. Melhor que no ensaio.
ELA
Posso tirar o cabelo?
DIRETOR
Pode.
Ela tira a peruca, com a ajuda do maquiador.
DIRETOR
Olha, o Vítor terminou.
Aplausos. O pessoal da equipe cumprimenta Vítor. Ele se aproxima
do diretor. Abraçam-se.
DIRETOR
Valeu, Vítor.
ELE
Grande prazer.
Vítor se aproxima de Márcia. (ELA)
ELE
Márcia.
Abraçam-se. Ao fundo, o diretor responde perguntas de várias
pessoas.
ELA
Acho que ficou bom.
ELE
Acho que sim.
ELA
Você não está na externa da praça?
ELE
Não, já fiz a minha parte.
ELA
Que inveja. Seis e meia.
ELE
Você filma até quando?
ELA
Até sexta.
ELE
Quero te passar aquele texto.
ELA
A peça. Claro, quero ver.
ELE
No original são quatro atores, tem um narrador e
uma criada. Mas acho que dá para fazer só com o
casal.
ELA
Vê se você vai lá na sexta.
ELE
Se der eu vou. Se não, te ligo. A gente marca de
jantar.
ELA
Seria ótimo.
ELE
Seria.
Eles sorriem.
ELA
Tchau.
ELE
Tchau.
A Menina abana para Márcia. Ela abana de volta. Vítor e a Menina
saem de cena. Márcia sai de cena.
O diretor fica sozinho no cenário, lendo o roteiro. Risca uma
folha. Continua lendo o roteiro. Pega a metade que sobrou do
sanduíche e dá uma mordida. Pára no meio, a sanduíche parece ter
um gosto horrível, ele não consegue engolir. Ele pega a folha
riscada do roteiro, arranca e cospe o sanduíche. Põe o sanduíche
inteiro na folha do roteiro e embrulha.
Deixa o embrulho sobre a mesa e sai de cena lendo o roteiro.
OUTRO DIRETOR (OFF)
Vai grua. Vai. Sobe toda, devagar.
CENA 3 - PRAÇA - EXTERIOR, DIA
O cenário da sala, montado num palco no meio de uma praça.
OUTRO DIRETOR (OFF)
Foi toda? Segura. Corta.
Os atores, um por um, com seus créditos, agradecem os aplausos da
platéia.
Entrevistas reais com os espectadores, durante os créditos
finais.
- O que você achou?
- Já tinha visto uma filmagem?
- Gostou da história? Entendeu?
- Conte a história para alguém que não viu. (achar alguém que não
viu a filmagem para que outra pessoa lhe explique o que
aconteceu).
Entrevista falsa (combinada) final, com casal de namorados.
- Como é o teu nome? E o teu? Já atuaram alguma vez? Vocês vão
ser um casal, Paulo Eduardo e Maria Regina. Aqui está o roteiro.
Eu me aproximo, pergunto o nome de vocês, vocês dizem, Paulo
Eduardo e Maria Regina. Aí eu pergunto se vocês gostaram da
filmagem e vocês dizem o texto. "Gostei. Devia ter isso todo
dia". "Seria ótimo". "Seria". Certo? Podemos fazer?
MULHER
Gostei. Devia ter isso todo dia.
HOMEM
Seria ótimo.
MULHER
Seria.
FIM
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(c) Jorge Furtado, 2000
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br
26/06/2000
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