A história do homem é apenas uma das muitas histórias que se passaram em nosso planeta desde que a vida começou, há três bilhões de anos. É a história que mais nos interessa, por motivos óbvios, mas esquecer nossa ligação com o todo é o mesmo que fechar os olhos para o mundo.
Não estamos sozinhos. Não somos os únicos. Não podemos agir como se o planeta fosse a morada de uma única espécie, como se a natureza existisse unicamente para nos servir. Quanto mais pensarmos assim, mais próximos estaremos de cometer erros fatais.
O relativo sucesso da espécie humana dependeu sempre de algumas características básicas: o poder do nosso cérebro, nossa postura ereta, nossa capacidade de linguagem, nossa organização social, as proporções adequadas de nosso corpo.
Mas só desenvolvemos essas características e nos tornamos os reis do planeta porque soubemos nos adaptar como nenhuma outra espécie. Soubemos, mais do que sobreviver aos desafios da natureza, encontrar soluções únicas e criativas para conviver com ambientes em permanente transformação. Soubemos crescer e nos fortalecer na diversidade. Soubemos compartilhar a riqueza que nos cercava.
Muitas das soluções adaptativas humanas, no longo caminho de nossa evolução, moldaram nosso organismo, nossa estrutura mental e nosso comportamento. O animal humano que caçava e coletava alimentos estava plenamente integrado à natureza.
Mas isso era pouco para as grandes ambições do bicho homem. Criamos uma civilização, afastando-nos dos outros primatas, ainda tão parecidos conosco do ponto de vista genético. Desenvolvemos tecnologias que ampliaram nossa capacidade de transformar o planeta. Pouco a pouco, nossa racionalidade foi superando nossa animalidade.
Começamos a pensar no mundo como um cenário à nossa disposição. Em vez de fazer parte do grande concerto planetário, imaginamos que éramos os maestros, os donos de tudo, os consumidores de um super-mercado eternamente aberto, e que não precisaríamos nunca pagar pelos seus produtos.
Esquecemos que foi a diversidade que nos tornou humanos, e que a natureza não foi feita para sustentar uma única espécie. A palavra "ecologia" foi então criada, talvez tarde demais, para tentar nos reaproximar de nossa verdadeira condição planetária. Recuperar a consciência da diversidade é o primeiro passo para evitar desastres para a nossa espécie.
Descobrimos então que os problemas provocados pela civilização e pelas tecnologias eram muito maiores do que pensávamos. Pior do que isso: esses problemas estavam crescendo num ritmo acelerado, e a maioria dos humanos continuava agindo como se eles não existissem.
A água, o ar, a terra, o subsolo, os alimentos que ingerimos, as roupas que vestimos, os computadores que usamos, tudo que parece tão diferente e tão separado, na verdade está ecologicamente ligado. Ou pensamos o planeta como um todo e consideramos as diferenças e as variedades, ou continuaremos nossa ambiciosa e trágica trajetória de reis de uma natureza em decomposição.
Muitas espécies já foram extintas em nosso planeta. Por motivos variados. Muitas outras estão em extinção. Preferimos não lembrar disso, porque é um pouco deprimente, e também porque achamos que a extinção não acontecerá agora. Nosso orgulho continua nos cegando. O período da extinção pode já ter começado. E não faltam sinais bem concretos.
Estamos eliminando a diversidade de nosso planeta, e com ela o próprio futuro. Quanto mais uniformizamos, quanto mais aplicamos a lógica de consumo insaciável às nossas vidas, mais próximos estamos da extinção. Nossa espécie poderá, talvez, sobreviver mais algumas centenas de anos, mas outras coisas estarão extintas bem antes disso:
O prazer de tomar um banho de mar.
De nadar em um rio.
De tomar água de uma fonte cristalina.
De respirar bem fundo em baixo de uma árvore.
De caminhar de pés descalços sobre a grama.
De brincar com as crianças num parque.
De ver o sol se por.